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domingo, 31 de julho de 2011

Os papéis do Papel. Post-3 As classes do papel...


Por serem muitos os aspectos da utilização do papel, vou distribuí-los ao longo do texto em três classes, para uma melhor compreensão:
·        Papéis para registro gráfico – são capazes de servir de suporte para materiais riscantes, marcadores e impressões. São utilizados em sua maioria para Desenhos, gravuras, frotagem.
·       Papéis para interação pictórica – São geralmente espessos, para que possam absorver o líquido que compõe a maioria das tintas, aquelas aquareláveis também precisam deste tipo de papel, para que os trabalhos não se rompam.
·         Papéis de interação escultórica - Aqui a qualidade procurada é aquela que dá estrutura tridimensional aos objetos.
Esta classificação não se pretende categorizante, pelo contrário sempre devemos estar atentos ao fato que em arte, as fronteiras são muito tênues, sendo assim sempre procuro manter a mente aberta às variações. Nestas classes o papel pode assumir níveis intermediários entre uma e outra conforme aquilo que estiver acontecendo no momento de sua utilização. Para Martin Heidegger[1] (1992) a expressão “fenomenologia” é uma forma de fazer-ver tal como se manifesta a realidade. Nesse sentido, não é o estudo do que aparece, mas o fazer-ver no âmbito da experiência.  Manifestar-se desde si implica uma espontaneidade na qual os fazeres quando muito representam a nós mesmos ou a algo que nos diz respeito, porém não se esgotam.
Quero chamar a atenção para a necessidade de uma sintonia com o aqui-agora, e a possibilidade de ampliar esta atitude na hora de escolher uma técnica, buscando viver de instante a instante. Assim a consciência do objetivo e da técnica, é um bom instrumento para fazer a escolha.
Antes de submergirmos nestas categorias, suas técnicas e recursos, quero chamar a atenção para a afinação do nosso ser em seus sentidos perceptivos, disso dependem todas as etapas do trabalho arteterapêutico. A capacitação técnica e teórica também são premissas. Não é preciso lembrar que a arteterapia é uma profissão relativamente nova, porém exige formação específica na área. Sinto muita saudade da Terceira Turma de Especialização em Arteterapia no Contexto Social e Institucional, do Instituto da Família de Porto Alegre, onde me tornei uma arteterapeuta.
Existem vários centros de formação pelo mundo, em nosso país estão reunidas e reguladas pela UBAAT-UNIÃO BRASILEIRA DE ASSOCIAÇÕES DE ARTETERAPIA. Como qualquer outra linha de tratamento, quando trabalhamos com arteterapia devemos ter responsabilidade e estar devidamente capacitados, a saúde do nosso interagente será afetada e somente assim podemos ter maior segurança de que isto será benéfico. Gosto de me referir como interagentes às pessoas que fazem tratamento com um arteterapeuta, isto porque assim como propôs uma amiga e colega naturóloga, Gabriela Ramos, acredito na necessidade do comprometimento de ambas as partes na construção do equilíbrio na saúde. Assim sem correr com o assunto deixo combinado para o próximo post falar sobre Papéis para registro gráfico. Para quem quiser ampliar é só procurar as páginas da AATERGS e da UBAAT.


[1]HEIDEGGER, M A origem da obra de arte. Edições 70, Lisboa, 1992.

domingo, 24 de julho de 2011

Os papéis do Papel. Post-2- Das origens...


A maioria de nós sabe que a nossa sociedade atual está assentada sobre o papel. Os Livros sagrados, os profanos, as receitas, os códigos de lei; em fim os acordos comerciais, a ética e também boa parte da expressão plástica e literária foram feitos tendo papel como base. Num primeiro momento percebemos que ele nos acompanha há muito tempo, mas não podemos perder de vista que ele foi, no inicio, quase que uma obra do acaso. Nossas expressões já vinham sendo registradas desde a pré-história nos meios possíveis: chão, paredes, pedras, ossos, couro, cerâmica e outros materiais serviram como suporte para a manifestação gráfica humana. Vou dedicar este capítulo a esta referência tão importante para podermos seguir pensando sobre os muitos papéis que o papel pode tomar no trabalho com a arteterapia. Em 1575 François de Belleforest[1] confirmou ou a existência destas manifestações na forma de desenhos e ou pinturas na gruta Rouffignac, tão significativas quanto as de Altamira na Espanha. Ambas são vestígios claros da expressão do homem pré-histórico através do desenho e da pintura.
Pela própria proporção destes desenhos podemos pensar quanto de emoção daqueles homens carregam estas imagens.  O desejo pela caça, o temor, o impacto destas imagens na vida daqueles homens foi possivelmente o que levou à sua necessidade de expressão. Fayga Ostrower[2] cita em sua obra a importância das artes para a formação da pessoa, sobretudo, pelo ato de desenhar, gesto este que é natural acontecer em todas as crianças de qualquer parte do mundo, qualquer cultura e em qualquer suporte. Mas com o surgimento do papel, na China em Hunan, inventado por T'sai Lun. Os processos de sua fabricação desenvolveram-se lentamente, e também a divulgação desta técnica pelo mundo, sendo levada por monges para o Japão e chegando à Europa aproximadamente dez séculos depois.
   Nosso protagonista também adquiriu muitas funcionalidades tanto como suporte, como meio de intervenção ou material escultórico. Nos próximos posts me dedicarei às diversas aplicações às quais vivenciei, tanto no percurso das artes como em atendimentos. Estas estão intimamente ligadas pelas técnicas e mesmo em algumas propostas, válidas para a ampliação da saúde num aspecto integral com a prática da arteterapia.

1- PLASSARD, Jean (1999), Rouffignac, le sanctuaire des Mammouthes, Éditions du Seuil, Paris, 99 p.

2- OSTROWER, Fayga. Arte pré-histórica. In: Universos da Arte. 13ª Ed. Rio de Janeiro: Campus, 1983. p 294-308.

domingo, 17 de julho de 2011

Os papéis do Papel - construindo saberes em arteterapia.


Introdução: 
Fazia muitos dias que eu tentava escrever um texto para abrir esta nova publicação, trata-se de um livro sobre arteterapia para leigos e profissionais. Nele vou falar sobre diversas utilizações do papel possíveis em uma abordagem arteterapêutica, sempre partindo do olhar e da vivência que a arte me proporciona. Minha formação em artes visuais, ao contrário do que a maioria das pessoas imagina, além de me levar ao encontro da arte distante, trouxe a vibração da arte para dentro da minha vida. Este trabalho retoma minhas atividades neste blog e ao final da publicação de todos os fascículos, o livro será disponibilizado no formato e-book como parte de uma pesquisa. Por isso gostaria de convidar as pessoas que queiram colaborar com suas experiências, sugestões ou técnicas a participarem deste trabalho, tendo suas participações respeitadas e devidamente citadas na publicação do livro. A intenção é a de abrir a obra na rede para a participação de outros colaboradores numa reflexão coletiva para a construção de novos saberes para a prática da arteterapia e para sua melhor compreensão pelo público em geral, todos aqueles que acreditam como eu que a arte é imprescindível.
Sabe aquele dia que parece que levantamos com dois pés esquerdos da cama? Em que o trabalho não rende nada... Comecei a escrever esta história num dia assim, com duas mãos esquerdas, os canhotos que me desculpem, mas para um destro é complicado... Hora após hora, a lixeira cada vez mais cheia de folhas de amassadas... Foi na última bola que joguei sem encontrar um “papel” para um suposto protagonista que encontrei minha personagem, estava ali, bem na minha frente na cesta de lixo. Talvez você já saiba que sou arteterapeuta, e com algum tempo de prática começamos a nos dar conta de quanto é um recurso eficiente para lidar com os desafios e conflitos que a vida apresenta, processo às vezes consciente.
Que isto tem a ver com a cesta de lixo, as bolas de papel, a arteterapia e o meu desconforto? Tudo! Ali estava um primeiro exemplo de utilização dos recursos expressivos como recurso terapêutico. Enquanto eu tentava acessar minha criatividade e não conseguia, cresciam em mim sentimentos de frustração e desvalia que só faziam bloquear mais a expressão, sim eu também sinto estas coisas. O questionamento estava dentro de mim fazia muito tempo, a experiência expressiva e plástica também... Então porque estava tão difícil falar sobre as várias formas de utilizar o papel como recurso em arteterapia? Sim, era isto, eu queria... Escrever sobre os muitos papéis que o papel poderia exercer num atelier arteterapêutico, sala de aula, quarto de hospital e em muitos outros aspectos da nossa vida.
Aquelas bolas de papel estavam ali demonstrando o meu descontentamento na forma de papel amassado. Amassado pela minha raiva em não conseguir escrever este primeiro capítulo. O papel do papel neste caso, foi o de receber a minha emoção,possibilitando assim a sua manifestação inofensiva e adequada à minha necessidade. Da mesma forma quando queremos propor, em um atendimento individual ou em grupo,mobilizar e exteriorizar a raiva o papel é uma boa opção. Podem ser utilizador os mais variados tipos de papel seco onde as pessoas possam imprimir seus sentimentos apenas utilizando as mãos. Ele(o papel) pode ser nosso objeto de interação corporal, simplesmente pela possibilidade que ele nos dá de amassar,torcer,furar, rasgar, etc. No momento em que eu coloquei a raiva pra fora de forma adequada, criei um espaço dentro de mim para que o texto fluísse e chegasse até aqui. Da mesma forma quando conseguimos extravazar emoções fortes de forma adequada, colocamos a nossa energia em movimento, desbloqueando nossas possibilidades de observação, elaboração e superação. Este trabalho é despretensioso e bastante coloquial para que seja acessível e agradável a todos que se interessem pelo assunto.
...e foi assim que consegui iniciar este livro, seus fascículos serão publicados sempre aos domingos! Quem quiser entrar em contato e colaborar com esta publicação envie para eliane_barreto@yahoo.com.br