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terça-feira, 7 de outubro de 2008

ARTETERAPIA na Zero Hora !!!

Porto Alegre, 06 de setembro de 2008 | N° 15718

Pintando para a liberdade

Oficinas supervisionadas por arteterapeutas estimulam a sociabilidade e resgatam a auto-estima de pacientes com transtornos psiquiátricos graves

Os maus resultados e o isolamento na escola eram um sinal de que Gilson de Oliveira Treméa, 36 anos, era diferente das outras crianças. Na juventude, a agressividade repentina insistia em provar que essa diferença era maior do que a família podia supor e com a qual o menino podia lidar. Enquanto médicos erravam o diagnóstico, o jovem abandonou os estudos, teve de deixar um emprego, depois, outro, e viu os amigos se afastarem.

A esquizofrenia esvaziou a agenda de Gilson.

Depois de cerca de cinco anos de investigação médica e mais de R$ 9 mil gastos em remédios e consultas particulares, finalmente a doença foi detectada. Há mais de três anos, o paciente foi encaminhado, por um médico da rede municipal de Alvorada, a oficinas de arteterapia em Porto Alegre. Desde então, as aulas nas quartas e quintas-feiras passaram a ocupar a semana inteira de Gilson.

Quando não está no Projeto Vivendo e Reaprendendo, do Centro de Prevenção e Intervenção em Psicoses (CPIP), no bairro Rio Branco, na Capital, está em casa contando ao pai e aos vizinhos sobre os eventos realizados na entidade ou sobre suas produções no encontro anterior.

– Esse projeto é uma beleza. Ele ficou mais calmo, controlado, e voltou a falar com as pessoas, porque antes não era muito conversador – comemora o pai, o aposentado Victório Angelo Treméa.

Com o Ensino Médio incompleto, um emprego de ascensorista e um curso de bateria para automóveis no currículo, Gilson jamais tivera contato com as artes plásticas antes do projeto. Descobriu o gosto pela pintura – e o talento – nas aulas supervisionadas pela psiquiatra Sandra Maria Soares, presidente fundadora do CPIP.

Na entidade onde cerca de 15 voluntários trabalham para atender 30 pacientes, ele ganhou, além de uma nova rotina, novos amigos, e recuperou a auto-estima. Os ônibus que têm de pegar para chegar ao Centro e o horário a cumprir dão a Gilson a autonomia e a responsabilidade necessárias nos afazeres da casa onde mora sozinho, próxima à do pai, em Alvorada. Mas as atividades do projeto lhe devolveram muito mais do que essa independência.

– Com a doença, ele acaba ficando fora da vida social. Não tem namorada, não estuda, não trabalha, isso tudo que preenche nossa vida e é tão gostoso. De certa forma, o projeto devolveu a pulsão da vida ao meu irmão – conta a psicopedagoga Gisele Treméa Vargas, 43 anos.

Ele conta que gosta do ambiente tranqüilo do CPIP, “onde ninguém o incomoda”, e, ao mesmo tempo, adora conversar com os voluntários e colegas. Nos recessos de inverno e verão, tem saudade das aulas e preenche o tempo com partidas de canastra, filmes aos quais assiste em casa e responsabilidades passadas pelo pai, como pagar contas no banco ou ir ao supermercado.

Ao falar sobre a evolução no quadro clínico dos doentes, Sandra abre um sorriso e conta a história de outra paciente do Sistema Único de Saúde, Maria Jurema Martins Teixeira, 48 anos. Portadora de transtorno do humor, ela começou no projeto há três anos, apresentando um quadro de depressão gravíssimo que a levou à tentativa de suicídio.

– Pagamos um curso para que ela aprendesse a mexer na máquina de costura. Depois, outro para aprender o corte. Começou com a ajuda das voluntárias e hoje produz sozinha, em casa, bolsas de tecido – conta Sandra.

Nos bazares dos quais a ONG participa, Maria fica responsável pela banca das bolsas e voltou a trabalhar na loja da irmã como vendedora, profissão que tinha antes de a doença surgir.

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